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Ficção Real 02 – Homem Marcado

A guerra é uma experiência transcedental. Em pouquíssimos eventos na história da humanidade (neste caso até mesmo incluindo os não-tão-humanos Helghast) é possível vivenciar com tanta intensidade momentos de iluminação ou revelações espirituais. A história que conto agora é a minha própria: Primeiro Tenente G.V. Tango, ISA, número de série 664359.
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E este é o dia em que eu morri.

Estávamos numa incursão nas Indústrias Helgan, um complexo fabril alvo de pesados bombardeios, logo no início da campanha. Éramos um destacamento grande, formado por 3 esquadrões totalizando 14. Eu era o médico do esquadrão Foxtrot. O que não imaginávamos é que aquele lugar estava ocupado por um igual número de Helghast.

A missão era simples: dominar e assegurar domínio sobre 3 pontos estratégicos da indústria. O trabalho foi complexo, mas eventualmente tínhamos o controle de todos os checkpoints. Eu acabei tomando parte na conquista e defesa do CP3, o mais avançado e bastante perto de onde suspeitávamos ser o centro da resistência HGH.
Enquanto me preparava para abandonar o CP3 e voltar ao centro de comando, um aviso no rádio definiria os acontecimentos daquela noite: o HGH havia me marcado para morrer.
Não era minha primeira vez. Quando se é um alvo de assassinato, o papel do homem marcado geralmente é o mais simples de todos: mantenha-se protegido em um ambiente defensável e deixe que seus colegas façam o trabalho sujo por você.
O que era para ser uma operação limpa, porém, virou uma batalha de guerrilha: por causa da missão anterior não havia mais linhas inimigas e nossas tropas estavam espalhadas por todo lugar, assim como as deles.
Acreditem quando eu digo que ninguém “dá branco” na guerra (e não me refiro à bandeira). Ninguém esquece o que tem que fazer, ninguém corre gritando para onde aponta o nariz. Nestas horas acontece exatamente o contrário: você sabe exatamente o que fazer, mesmo porque o treinamento militar parece brotar do centro de memória em seu cérebro e inundar sua consciência, escorrendo pelos seus 5 sentidos.
Não correr. Não me desesperar. Não caminhar pelas ruas abertas. Me manter em solo alto. Avançar sala por sala, sem precipitação. Não disparar tiros desnecessários.
A primeira e única corrida foi a mais tensa, pois envolvia sair do CP3 e me expor por uns 30m nas ruas abertas que separavam os dois prédios do que um dia fora o orgulho da indústria bélica de Helgan. Curiosamente, esta foi a parte mais simples.
Duas escadarias e três salas depois, percorridos no que se pareciam semanas, eu encontraria dois membros do esquadrão Bravo. Mais tranquilo, fui escoltado pelos próximos 150m, onde encontramos os outros 3 membros do Foxtrot. Eu começava a me sentir mais tranquilo.


Nem bem havia realizado a última frase, ouço tiros disparados atrás de mim. “Vai, vai, vai!” gritava Swimer. Enquando eu era arrastado pelos colegas do Bravo só pude ver Swimer, W2r2 e Haazoo disparando freneticamente enquanto ficavam para trás. A escadaria à nossa frente levaria para o galpão cuja saída era através becos mais seguros, e então diretamente para o centro de controle. Frank, do Bravo, desceu na frente e o som dos disparos vindos da sala atrás de nós encontrou na escadaria abaixo o seu eco. Frank estava morto, mas não sem antes levar um deles consigo para o inferno.
Eu nunca soube o nome do outro rapaz da Bravo, mas neste momento agimos quase que como reflexo de espelho um do outro, enquanto atirávamos nossas granadas escadaria abaixo. Não sei dizer se acertamos alguma coisa. O rapaz sem nome me puxou para trás e avançou um lance de degraus, para em seguida ter seu capacete violentamente arrancado pelo projétil de M82. Em seguida, quatro olhos vermelhos subiam as escadas, e olharam diretamente para mim.
O confronto seguinte se resumiu a dois disparos. O primeiro atravessou o Helghast bem no meio dos seus olhos vermelhos, e teria sido bem registrado como uma vingança ao garoto sem nome.
O segundo atravessava meu capacete e havia partido do soldado mais abaixo da escada.
Enquanto a visão turvava na inevitável conclusão, eu pedia desculpas aos colegas que deram suas vidas pela minha, e lamentava não os ter honrado como deveria.
Mas eu também baixava o joystick sobre a mesa da sala e pensava: “que partida ANIMAL!”.
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