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Outubro de 2023: O mês que o Google Discover suspendeu a gente, destruiu o nosso alcance, censurou e reduziu a audiência de centenas de portais

Google Discover capa 01
Google News

Eu pensei muito se deveria escrever este artigo. Na verdade o conteúdo dele ficou por semanas na minha cabeça, desde que eu aproveitei minhas primeiras férias trabalhistas em mais de uma década de trabalho – antes eu era autônomo, e com isso não poderia tirar férias reais – e assim queria ver como estava a extensão de danos desde o famigerado “HCU Update” do Google.

Queria fazer testes de conteúdos durante as minhas férias e no meu tempo livre. E vi que os meus testes não estavam mais funcionando. E isso me frustrou bastante, a ponto de quase ter burnout em alguns momentos em janeiro durante as minhas férias.

Mas vamos lá, que este artigo é extenso, é um desabafo e que queria comentar mesmo assim!

Em setembro e, principalmente, em outubro de 2023, o Google fez alterações substanciais em seus algoritmos de pesquisa orgânica e do chamado “Google Discover”, um feed personalizado que ajudava diversos portais a terem visualizações. A gente estava lá com as webstories, um formato de postagem que lembra as stories do Instagram, mas com um detalhe: as webstories não sumiam depois de 24 horas, e com isso eu acabei investindo bastante no formato no meu tempo livre à noite e nos finais de semana. .

Com isso somos um dos portais brasileiros que mais tem webstories publicadas. Até o momento são mais de 4780. Era pra ter quase 6 mil, mas muitas delas se perderam por conta de uma pane técnica anos atrás, onde perdi anos de conteúdos postados. Mas não vou detalhar muito sobre isso aqui.

Só que em outubro o Google simplesmente removeu a gente do Discover. Sem explicações, sem ter como a gente adaptar nosso conteúdo, sem ter como saber o porquê, sem saber se a gente tinha feito algo errado. Uma morte lenta da gente, sendo que eu tinha em especializado em conteúdos de Fortnite e ajudava a comunidade brasileira de cosplayers, que antes não tinha apoio de portais.

Ou seja: uma censura extrema por parte da empresa, que, aparentemente, não queria mais ver conteúdos originais nossos e pluralidade no seu feed algorítmico.

E não foi só com a gente: centenas de portais em todo o mundo também foram censurados pelo Google da noite pro dia. Portais que ainda estão no ar, mas certamente com dificuldades, já que, creio eu, tiveram de demitir redatores e reduzir investimentos.

Já que, sem ter tráfego, não tinha como ter ganhos em publicidade para manter a estrutura cada vez mais crescente pra manter o site no ar e remunerando seus redatores.

O Google, claro, alega que o Discover é um feed personalizado que atende os interesses dos usuários. Mas a meu ver, aqui no Brasil, o Google Discover se tornou uma panelinha de grandes portais e sites que foram registrados tem poucos meses. Todo o trabalho de anos de muitos portais foram praticamente ignorados pelo algoritmo. O algoritmo ficou tendencioso para favorecer a “velha mídia”, de portais grandes e que, certamente, conseguem conversar e negociar diretamente com o Google para mitigar o impacto que teriam em suas audiências.

2 pesos e 2 medidas. E para portais pequenos, não tinha como nem ter contato direto com eles.

Para o nosso caso, que nos tornamos um site de nicho (principalmente com meu foco em Fortnite e World of Warcraft, que são 2 games que jogo bastante, fora outros que iria cobrir com mais frequência), a suspensão significou uma censura direta. Eu já tive webstories de Fortnite que bateram 10 mil visitas: será que o Google achava que o Fortnite não tinha audiência cativa, com o jogo batendo recordes de usuários a cada temporada?

E o que dizer da época da Temporada Raiz, com o jogo batendo recordes de usuários simultaneamente ?

A única coisa que aparecia de Fortnite no Discover eram poucos posts de menos de meia dúzia de portais grandes (que não foram afetados pelo update), e uns 2 ou 3 canais do Youtube. Até perceber que nem isso aparecia mais no meu feed.

E se não tem pluraridade de conteúdos de Fortnite, por exemplo, o leitor deixa de abrir o Discover para se informar. E aí isso começa a ocorrer também para diversos outros assuntos, de games, cultura pop, etc.

Lá fora a situação do Discover era ainda pior. A especialista em SEO Lily Ray (da Amsive) estava sempre postando nas redes sociais exemplos de webstories de spams que estavam aparecendo no Discover, ferrando com a experiência do usuário. Tudo de portais novos e sub-domínios, fora o domínio incontestável do Yahoo e os conteúdos sindicalizados que o portal compra e publica em suas páginas.

Com isso quem tentava um lugar ao sol não tinha como concorrer. O Yahoo norte-americano dominava o Discover.

E a situação ficou tão tensa com as webstories nos EUA que o Google teve de começar a reduzir ainda mais a visibilidade do formato que eles mesmo tentaram popularizar ao fazer parcerias com grandes portais na criação de webstories. Assim a gente, que faz muitas webstories mais sérias e bem trabalhadas, iremos sofrer com isso. O futuro da nossa nossa criação de conteúdo se torna incerto, já que tenho receio de nem ter mais visibilidade orgânica em algum momento no futuro.

Parece que durante todo o ano de 2023 e ainda em 2024 o Google anda tentando lidar com a enxurrada de conteúdos criados com IA generativa, que ficou mais barata e cada vez mais popular. Eles tentaram lidar um pouco com a IA generativa aplicando o update de Hiddem Gems (joias escondidas), que alavancou fóruns de discussão como o Reddit e o Quora.

Mas os spammers se adaptaram e começaram a usar fóruns do Reddit e do próprio Google (o Google Groups…) pra postar conteúdo, e conteúdos muitas vezes errados, mas que eram valorizados pelo algoritmo. E assim portais sérios e menores pararam de ter visibilidade, acelerando o processo de eliminar pequenos negócios que dependiam da pesquisa orgânica pra sobreviver.

A censura do Discover também reduziu boa parte da minha motivação em criação de conteúdo. De que adianta comentar sobre um trecho que curti de um jogo num post de progressão se eu não vou ter audiência e gente pra ler? De que adianta perder algo como 1 hora pra montar uma webstory de Fortnite, Elden Ring, God of War, Demon’s Souls (no PS5) e World of Warcraft com prints dos jogos só pro meu conteúdo ser usado de treinamento para as IAs generativas, sobretudo a do próprio Google, com a SGE e o Gemini ?

Se eu tenho redes sociais pequenas, tenho de pagar pra ter alcance? Como é atualmente no Facebook e Instagram? Eu não tenho dinheiro para isso.

De que adianta também separar tempo todos os dias à noite para ter uma cobertura de hardnews com qualidade se a gente não tem visibilidade? E que poderia ser uma opção extra de conteúdo para os leitores? De tentar um formato que prioriza conteúdo visual, rápido e direto para os leitores verem rapidamente a notícia com uma quantidade mínima de propaganda, se não tem mais visibilidade ? Ou será que o Google só quer ver webstories de portal grande ?

De que adianta fazer dezenas de reposts de cosplays pra divulgar o trabalho de arte de cosplayers e fotógrafos brasileiros (e que falam português, mas que moram no exterior), pra não ter visitas direito ? Me pergunto isso todos os dias desde outubro, e olha que boa parte de nossas matérias conseguem deixar o cosplayer feliz pela notoriedade, e deles continuarem inclusive no hobby divulgando novos trabalhos nas redes sociais!

Mas o Google não quer pluraridade e diversidade em seu Discover.

De que adianta também ter 12 mil posts aqui no site e ganhar apenas 20 cents por dia de Adsense ? Com as webstories eu conseguia pelo menos dar mais grana pro Google, já que eu tinha mais audiência. Mas hoje em dia a produção de conteúdo não está mais valendo a pena. E ainda evito entupir o site de propaganda. Não temos, por exemplo, banners de terceiros, nem Taboola, nem nada relacionado. Só temos aqui o Adsense, que está ficando cada dia pior.

Aí fica tentador usar outros modelos de publicidade, e diversos editores acabam entupindo suas páginas com propagandas, deixando a usabilidade pro usuário prejudicada. Pelo menos aqui em deixei o mínimo de propagandas possível.

Com toda essa situação não consigo nem recomendar mais as pessoas a seguirem na criação de conteúdo de games e cultura pop. Não consigo mais recomendar o formato de webstories, algo que eu fazia bastante nas redes sociais. “Olha lá, o Google estava mostrando muitas stories no Discover, isso pode ajudar o seu portal a ter mais view!” Mas se é portal novo, a estratégia funciona, já que na prática o portal novo está com a “ficha limpa”.

Não consigo mais recomendar um formato que, além de estar perdendo visibilidade, também praticamente “entrou em modo de manutenção”. A última atualização do plugin oficial foi em novembro e hoje tem só 2 desenvolvedores que ainda atuam no plugin, e um deles também atua em outros plugins do WordPress.

Mas quando é portal antigo, sem nem saber o que fizeram de errado, a meu ver se torna uma censura direta pra favorecer portal grande. Não parece mais existir isonomia de uma empresa como Google no Discover. E olha que tem diversos assuntos que eu tenho bom posicionamento na pesquisa orgânica, mas o valor diário de Adsense está tão ridículo que eu só não removi ele de vez por aqui pois luto pra conseguir os 40 dólares restantes para completar os 100. E assim, quem sabe, receber o último pagamento deles e pagar os meus custos que tenho atualmente com o site.

E completar os 100 dólares, na minha projeção mais realista, só deve acontecer lá pra setembro, e ainda terei de me cansar bastante produzindo conteúdo loucamente até lá.

Mas também, o Google sempre bateu na tecla de nunca confiar o seu tráfego no Discover, pois tudo poderia sumir da noite pro dia. E hoje em dia até pode acontecer com a pesquisa orgânica. No final das contas só vai sobrar IA que vai consumir ela mesma pra continuar se treinar, já que não vai mais ter portal de conteúdo de games e cultura pop, e a gente nem pode barrar os robôs de IA, já que barrar eles também barra a indexação do Google.

Sem audiência, pra que gastar dinheiro com hospedagem e perder tempo criando conteúdo num portal? Hoje em dia a criação de conteúdo acaba se tornando um hobby pra quem curte, mas está cada vez mais difícil até mesmo isso.

Fora o acordo recente do Google com o Reddit, que não vejo com bons olhos.

Não sei dizer se o Google pretende ajustar o algoritmo do Discover nas próximas atualizações ou se eles pretendem, quem sabe um dia, ter mais transparência e mais informações pros donos de portais. Mas a única solução que resta seria começar um portal novo do zero. Mas ainda luto quanto a isso, já que passei 16 anos escrevendo e criando conteúdos aqui no Select Game, desde 2008. E ter de deixar tudo isso pra trás só por conta de um algoritmo é bem complicado, e por hora ainda continuo aqui, só esperando o tempo passar. Torcendo pra ter um milagre.

(e pensar que hoje em dia alguns dos portais novos que estão em franca ascensão no Discover provavelmente usam IA generativa de maneira extensa. E aparentemente com o apoio do Google…)

Sinceramente também não vejo mais o Google como uma empresa boazinha e cool que tinha um dos locais de trabalho mais cobiçados da área de tecnologia. Depois que eles demitiram milhares de funcionários – frisando que não só eles, mas dezenas de empresas grandes continuam demitindo funcionários – quem ficou acaba sofrendo com excesso de trabalho e problemas de ansiedade sem saber se vão continuar com emprego. E não parece que eles vão parar com as demissões, já que a meu ver parece que eles querem usar cada vez mais a IA pra substituir profissionais dos seus setores internos.

Por fim, se tem algo que quero parar de fazer e ficar lendo relatos do Google Discover nas redes sociais, sobretudo os “relatos de grande sucesso” que alguns “coaches” postam as vezes, com centenas de milhares de cliques. Pra portal e domínios novos certamente pode funcionar algumas tentativas e sempre vejo artigos novos comentando com dicas de como “entrar no Discover”. Mas ainda gostaria de ver um estudo de caso real de algum portal que conseguiu retornar o alcance anterior, mas gostaria de ver o algoritmo escolhendo os conteúdos de maneira isonômica. E não ter sites em “blacklists” internas do Google.